Mostrando postagens com marcador crônica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crônica. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Rio de Fevereiro

Existe uma paisagem urbana complexa, não tão desenhada quanto a teia da aranha, mas complexa, complexada. Nos espaços baixos, depressão de qualquer alma viva o  bastante para morrer aos poucos de madrugada, em becos, esquinas e pontos de ônibus. Nas planícies, celulares, os rostos não se veem senão por fotos e avatares ao longo da prolongação da rua em obras de arte contemporânea, mais vazias do que os bolsos de quem anda armado apenas com a sorte. No planalto, ah esse está cheio de ladrilhos larápios ladrões de pão, não como Aladdin que roubava pra matar a fome, estes roubam pra matar de fome, e sede, e raiva, e dor. Nas surdinas, folias onde chovem confetes de balas perdidas e pretos mortos. Nas montanhas, pipas dançam no meio das estrelas e a chuva devasta toda subida da maré de esgoto. O navio negreiro parte do ponto final, confunde o aperto do latão com o do coração, que não bate em ritmo de samba, no Rio que só corre no mês depois de Janeiro, e morre afogado no asfalto, nas águas de março ou no suor dentro do trem. O surdo cala a boca de toda a dor da cidade, o samba termina em cinzas. Ninguém sabe de onde vem o vento, reza a lenda que é do mar, mas o mar é só pra quem paga, logo o vento não é mais meu, nem o samba, nem o surdo, nem a cidade. Mas a chuva e o assalto ninguém paga. Ninguém.

https://sweek.com/#/read/51301/1400000162

 Texto originalmente publicado na plataforma Sweek.

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Telegrama para o Mar

A porta estava aberta. Talvez me preocupasse em outros tempos, quando o inverno estivesse a espreita para entrar. Telegrafaram-me uma onda, enquanto preparava-me para viajar. Avisaram para levar apenas o essencial: Ondas, conchas, liberdade em garrafinhas de vidro fosco. Corri para avisar o oceano, meu irmão cansado, dormiu e sonhou a maresia. 

Não quis telegrafar, as gaivotas cantavam maxixe, o sol acabara de nascer, o coral já vai fechar. Conexão completa, a concha gritou: Sente-se logo em seu lugar. Avise as gaivotas que Úrsula está longe, o dia é claro, mas mantenha a vela acesa que depois a deusa apaga, só feche a porta e acorde seu irmão. Deixem o mar entrar em casa que ele cuida dela pra você. 

Veja bem a concha que vai levar - avisaram as gaivotas - elas levam suas lembranças, bem pertinho podes ouvir uma delas te contar: Lembra quando fostes embora? Quando voltastes para o mar? Lembra de ter construído os seus sonhos com as gotas do oceano? E aí tu vais lembrar dos seus sonhos oceânicos, infinitos. Gaivota, gaivota, não me venha carinar . Carinar ? - gritou a gaivota - pelos deuses, o que é isso? Disse a concha em seu ouvido, e ele sorrindo para o mar: Carinar - explicou - é sonhar tanto, que faz de conta faz acontecer. 

Conexão encerrada. E sentou-se na poltrona roxa, e o mar enviou um cavalo marinho para levar as minhas malas, cheias de conchas de lembranças, e fomos nós, fomos longe, fomos longe dentro do mar, cortejar Iemanjá.

https://sweek.com/s/BgEBDA5sCAUFBwgJAwEFB2YCCA==/Calu%C3%A3_Eloi/Telegrama-para-o-Mar

Texto originalmente publicado na plataforma Sweek.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Caos Geral

Coração apertado, com a situação da cidade e a do país, com saudade dos que se foram, com a mediocridade que se tornou a minha paixão primeira. O coração aperta porque nada disso dá pra eu resolver, a cidade é da igreja e o país é do capeta. Dos que partiram nada resta além da saudade, então eu me deixo sentir, mas a mediocridade... Não há coração que aguente.



sábado, 13 de junho de 2020

O cara que cantava alto na rua


Quando eu era criança, o cara que eu mais admirava (além do Clive Davis) era um cara que andava pelas ruas de fone nos ouvidos e cantando alto. A cidade era pequena, era exatamente assim que as pessoas o descreviam, ‘o cara que canta alto na rua’. Numa semana de inspiração vocacional na escola, nem sei se chamavam assim, mas quando levavam pessoas de profissões diversas pra falar sobre seus empregos, levaram ele. Era gerente de um banco, o maior banco da cidade naquela época. Ele provavelmente falou sobre o cargo, sobre suas responsabilidades, sobre a sua formação acadêmica e sobre suas experiências profissionais. Ele pode até ter falado o nome dele. Se eu perguntasse pra algum colega de classe no final daquele mesmo dia, ninguém se lembraria, porque não o levavam a sério, era só o maluco que cantava alto pelas ruas. Eu também não prestei atenção em nada que ele disse, mas não por pensar que ele era louco, mas especificamente porque eu já tinha a minha inspiração profissional completamente ocupada por Clive Davis, então dificilmente eu iria admirar um gerente de banco, mas eu admirava aquele cara, pelo simples fato de ele cantar alto na rua. 

Jennifer Hudson cantando na rua


Talvez fosse a confiança dele. Se você resolve cantar alto na rua e não é a Jennifer Hudson, sua autoestima deve ser, pelo menos, indestrutível, pra achar que pode cantar alto em vias públicas, tendo o público escolhido ouvir seu talento (ou falta dele) ou não. Não era isso. Eu sabia o que era que eu admirava naquele cara: era a capacidade de não se importar. Nem com a falta de talento, nem com o que iam pensar dele, nem pelo rótulo que podia ganhar (e ganhou: maluco que canta alto na rua), nem com nenhum tipo de convenção que poderia penalizar sua seriedade como profissional importante que ele era, só porque ele se deixava levar pela música. Esse era o principal ponto. O levaram na escola com intuito de inspirar crianças na escolha de suas profissões, na minha cabeça eu estava mais interessada em saber sobre a capacidade de não se importar, sobre o que inspirava o maluco que cantava na rua. Eu queria ser como ele. Não gerente de banco, eu queria não me importar, eu queria estar tão imersa no universo fantástico da música, que sem sair do meu mundo, poderia me transportar pra lá. Parecia ser um lugar maravilhoso, a ponto de ele não se importar, de não se preocupar com as normas não oficiais deste mundo. E são tantas normas não oficiais que formam correntes invisíveis que nos impedem de tantas coisas. Aquele cara cantando alto na rua era a prova viva e ambulante de que a felicidade não é permitida. A verdadeira, a genuína felicidade, a da imagem escandalosamente feliz, ela não é aceitável, ela não é tolerável, ela não é ajustável, ela não é controlável, portanto, ela é subversiva. Você não pode ser escandalosamente feliz, porque a sociedade não quer escândalo, ela não quer barulho, balbúrdia, música, revolução. A felicidade incomoda demais os fiscais da vida alheia. Quando sua vida, seu nome, seu afeto, seu amor, sua cor, sua fé, quando sua existência incomoda, não há nada mais revolucionário do que ser feliz. 


“Se você não incomoda o resto do mundo, não há problema em ser anormal”. Yuuko Ichihara (mangá xxxHolic, 2003).


E de todas as frustrações profissionais que eu carrego, hoje eu posso dizer, com firmeza e orgulho, que eu segui os passos do cara que eu admirava, eu sou o maluco que canta alto na rua. E se um dia eu vier a ser 0.1% do que o Clive Davis é, eu vou colocar esse cara no meu discurso de agradecimento, porque das formas turvas que minha mente processou a semana de inspiração vocacional, ele sem dúvida foi uma inspiração pra mim. Não saberia dizer se em todas as áreas da minha vida eu fui feliz neste mundo, mas no mundo pra onde eu vou dentro de uma boa música, posso garantir que fui e sou, afrontosa, incômoda e escandalosamente feliz.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Iluminação Pública


Você me abandonou na contramão de um cruzamento, me deixou chorando a beira da estrada. Você me viu chorar gritando o seu nome, dizendo que sem você eu não sabia ser eu, sem você não sabia viver, sem você o mundo era um globo ocular oco, que só se deixava transpassar por iluminação pública.

E na beira daquela estrada asfaltada pelos discentes da escolinha onde você lecionava geografia, agora eu já não choro mais. Você rasgou as cartas que eu te dei, os e-mails que mandei. Você me apagou da sua vida, mas levou o mapa desse coração que um dia foi seu. Agora, peço encarecidamente, com os olhos secos, meu mapa de volta. Se com ele você não soube se guiar pelo meu coração, não precisará mais dele nas estradas por onde andas agora. 

E não digas que eu não chorei de madrugada, na beira dessa estrada, os vagalumes me assombram, me deixam pensar que são seus olhos, voltando para o meu colo, pedindo perdão. 

Naquela noite, em que me deixou de mãos vazias, numa contramão de um cruzamento, naquela noite, então, chovia sangue em meu lamento, melado em soluços e desespero, banhado em sonhos destruídos, voltando a pé para minha casa, nossa, em tempos libertinos, que degradaram sua ideia de ilusão perfeita, e me deixaram aqui sozinho, retratando meu sofrimento, de uma noite apagada, pelo som do seu silêncio, nessa cabana abandonada, pelo corpo que a alimentava, que dava vida a essa estrada.

E agora o vento, assobia em minhas árvores, e traz sua lembrança amarga, em noites muito vazias, quando ainda consigo me lembrar de alguma coisa boa da vida.

20/09/2009

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Conversa com Cristais


          

Eu nunca me envergonhei da minha música. Nunca me envergonhei do meu amor. Nunca soube me portar diante do desconhecido. Nem sei o que significa altruísmo. E sinto o desânimo se afirmar em minha vida. Não tenho mais vergonha de escrever, de pensar nunca tive. A noite já foi mais escura, mas o passado nunca esteve tão presente. Vendo meus sonhos como vendi antes para ela. Juro que ainda lembro a melodia da minha música preferida. Creio que não saberei como viver. Tudo se foi, e eu não conheço a verdade. “Eu prefiro morrer”, foi o que eu pensei quando ela disse para eu deixar de amá-la, e quando ela partiu, eu senti como se eu fosse morrer, como se eu fosse morrer dolorosamente a cada passo que ela dava para longe de mim. Eu quero saber por quê. Por que ela sempre tem que me apunhalar? 

E tudo isso aqui dentro? Não tem valor? Quer saber mais? Eu não me importo com o vazio, não é ele quem me incomoda, o que me incomoda é o fato de ela não se importar. Eu sei o que eu sacrifiquei, Deus sabe o que eu sacrifiquei. Eu não pedi a vida pra ela, não foi isso que eu pedi. A culpa não é minha se eu a amo loucamente. Eu não pedi pra me apaixonar por ela, ela não pode me culpar por eu ser romântico. Ela não... Ela não merecia tudo isso que ela arrancou do meu peito com uma facada. E eu fiquei sozinho aqui, rapazes, sozinho em uma casa cheia de copos, cheia de bebidas, o piano, a gaita, o atabaque, o violino, o sax, estão todos lá em cima, e aqui, bem aqui dentro não tem nada, está vazio, e sabe onde está o que eu trazia aqui? Ela arrancou. Com um punhal ela arrancou, e não satisfeita ela o esquartejou, ela o torturou, e o jogou naquela lixeira. 

Vazio. 

Silêncio. 

Dor. 

Alguma lágrima boba. 

Raiva. 

Medo. 

Vazio. 

O que restou das cores do arco íris? Restou paz? Restou a paz? A verdade é consequência dos meus sonhos. Perdi o controle da vida, já não sei mais cantar. Desligue o rádio e me deixe partir. E a madrugada longa me abandona, observo os cristais sozinho a pensar, o velho whisky não me deixa adormecer. Por que acabar com as palavras? Por que deixar o rum? Não vou deixar você ir, nem com você vão as palavras. Deixe em paz minhas bebidas e seja feliz aonde quiser. 

Silêncio outra vez e com o silêncio vão os meus sonhos. Eu tenho sono, mas a noite vazia me assusta e me acorda de madrugada. Eu sinto frio. Muito frio. Eu não sei falar quando ela diz que me ama, não sei agir quando ela se vai. Nunca soube rimar quando ela sorria para mim, não consigo viver quando ela me deixa dor. E tudo o que eu amo fica para trás, porque eu não sei pensar em nada que não me recorde à manhã nublada, onde eu me apaixonei por ela... Eu sempre pensei no que dizer pra ela quando seus olhos pousassem sobre os meus, mas agora... Eu a amo, ela sabe que eu a amo, ela não quer aceitar, eu não quero aceitar. Eu a amo insanamente, eu a amo a cada momento que passa, eu a amo mais a cada manhã que nasce, a cada estrela que brilha, e eu não posso dizer que posso viver sem ela, porque eu não posso. Ela é a razão, ela é o sentido, como viver sem um sentido? 

Silêncio. 

Por favor, whisky puro e, pelo amor de Deus, num copo limpo, obrigado. 

29/12/2010

segunda-feira, 20 de abril de 2020

O trágico fim de Paspalho Loser


O caminho é vazio, não há versos, não há sepulturas. O caminho é longo, não há cruzes, não há flores. Ele caminha solitário entre as árvores secas, as corujas formam uma orquestra, e os corvos são seu guia. É um sorriso o que ele mostra? O que carrega em suas costas? Não há vagalumes e ele não confia nas estrelas. Ele não consegue mais caminhar, porque o que carrega é maior do que ele, é mais forte, e ele sabe que precisa continuar, ele precisa atravessar a noite, ele precisa encontrar abrigo. Então ele se arrasta, ele não se desfaz do terço, não se desfaz do rum, e pelo chão frio e fedorento ele se arrasta. Ele não sabe aonde deve chegar, ele nem sabe se quer chegar, mas ele quer caminhar, ele sabe que precisa caminhar, se arrastar, ele precisa se movimentar. Ele não quer envelhecer, ele não quer amar, ele só quer viver o pouco da vida que lhe resta, e ele não quer abrir mão do terço, nem do rum, e não quer deixar o peso que carrega. Ele quer caminhar sem deixar nada pra trás, nada do que trouxe até aqui. Ele não quer olhar para Lua, é um direito que ele tem. Ele não queria colocar os pés nos chão frio, mas lhe cortaram as asas, brutalmente lhe arrancaram o direito de voar. Ele não ousa olhar para o céu, mas pergunta “Por que, meu Deus?”. E continua se arrastando, e a dor está estampada em seu rosto cansado, mas ele não desiste, ele não se permite abater, não se permite olhar para trás. O vento é seco e traz a lembrança de um horizonte inalcançável, de um futuro inexistente, de um dolorido amor inesquecível, de um caminho infinito. Ele está cansado, ele não tem motivos para continuar, então ele se agarra a tudo o que trouxe, o peso, o rum e o terço, ele os abraça fortemente, e chora sozinho, ao som da orquestra de corujas, os corvos o olham compassivos. A natureza, então, lamenta a sua perda, mas o deixa ali sozinho, perdido, cansado, com frio.


Pela manhã, hienas correm pelos bosques satisfeitas, degustaram um cadáver congelado, e aonde se recorda o corpo encolhido pelo frio, somente o terço pode ser identificado. O mais triste, e mais confuso, é que já não estão mais lá as corujas nem os corvos, as árvores que há pouco eram medonhas, acordam arbustos aflorados, e logo à frente, próximo ao terço, um riacho corta a selva, e do outro lado uma casinha por entre as árvores. De frio padeceu, tolo patife, sentiu as lâminas do frio lhe cortarem à noite toda. O rum não o salvou, o peso também não, o terço apenas restou, nada fez para livrá-lo de seu fim. E lá estava o que ele tanto buscou, lá estava o abrigo que ele há muito procurou. Eis que o cansaço o cegou, o medo segurou as suas pernas. E o abrigo não lhe aguardava vazio, lá dentro, tomando, calmamente, seu Martini, uma jovem de beleza divina se aquecia junto à lareira, enquanto derramava algumas lágrimas mudas de solidão. Assim ocorreu com Paspalho Loser, o espírito da floresta, deturpado pelo amor idôneo por uma mulher, que lhe arrancou as asas e lhe roubou os sonhos. Descanse em paz, Paspalho, agora, você pode voar para a cidade dos sonhos. Tenha bons sonhos.

30/12/2010

domingo, 19 de abril de 2020

Batismo


Antes do amanhecer, lembre-se de perguntar seu nome. Quando amanhecer, esqueça-a, e continue vivendo, sem passado, sem esta noite, e tudo vai ficar bem. E dançamos juntos, abraçados, a noite não iria nos repreender. E dançamos como os raios dançam no céu. E voltamos no tempo, para bons tempos, e a Lua não era tão assustadora assim. E dançamos, até a Lua se apagar, dançamos até o dia clarear. Então ela me deu a mão, sorriu e disse tudo o que eu guardo em meu coração. Ela pousou seus olhos sobre os meus, e me embriagou de paixão, as palavras fugiram, eu não conseguia parar de sorrir. Então a multidão se afastou, e acanhou o meu coração. Eu soltei a sua mão. E sorrindo, ela me olhou, se despediu e se foi. 

Dentro de mim, um furacão de sentimentos devastava minha vida. Eu não fui atrás dela. Meu Deus, por que eu não fui atrás dela? Por que eu soltei a sua mão? Eu não sabia o seu nome. E ao me deitar não conseguia dispersar a sua imagem, não conseguia sentir os meus pés tocarem o chão. Eu não sabia o seu nome. E a música ainda tocava dentro de mim, assombrando meus sonhos, despertando as lembranças de seu corpo junto ao meu. E a noite se foi, com a Lua e a música, a noite se foi. Você ficou. Você ficou cravada aqui, sem conseguir descer, sem conseguir sair. Você, simplesmente, não ia me deixar mais viver. Por que eu soltei a sua mão? E toda noite me lembra àquela. Toda Lua me lembra àquela. E qualquer canção me faz chorar. 

Eu nem sei o seu nome. Eu não sei o seu nome. O lugar estava cheio, a multidão não era a favor de nós. Eu precisava ter um nome para chorar. Eu precisava ter um nome para lamentar. Então, me lembrei de que fui amaldiçoado no amor, pelos mesmos gloriosos invencíveis que me fizeram acreditar em contos de fadas. Então você ganhou um nome, você ganhou uma história. E ainda tenho passado, e o passado atormenta minhas memórias. Seu rosto ficou gravado em minha mente, sua voz em meus ouvidos, seu sorriso em minha boca, seu corpo em meu corpo, e você deixou algo muito estranho em meu coração. Ainda posso dançar pensando naquela noite, ouvindo àquela canção. Mas ainda estou inquieto, algo me machuca aqui dentro. Algo me apedreja. Não quero esquecer o seu rosto, os seus olhos, não quero esquecer o seu sorriso. Eu sei que eu vou sofrer. E se tudo acabar, que reste a música, ela é tudo que pode, é tudo que deve restar. 

03/11/2010

quarta-feira, 8 de abril de 2020

A vida em 24 horas - Capítulo VII



5h da manhã. Acordo sem despertador. Me deparo com inseguranças, incertezas, medo e angústias. Formiga (meu gato) caminha inquieta pela casa. Ligo o computador com um único objetivo: escrever minha dissertação. O computador começa a atualizar (e continua até o momento em que escrevo esse relato), o que impede que eu me perca nas leituras e escrita. Levanto e faço alguns abdominais. Coloco a bateria da câmera pra carregar, quem sabe gravar um vídeo pro canal, já tem meses que não posto. Formiga segue inquieta, o computador segue atualizando, a bateria segue carregando. O tempo nublado e chuvoso me chama pra rua, pra uma caminhada ou uma rápida corrida pelas ruas molhadas. Artemis (CD novo da Lindsey Stirling) baixado no celular, poderia correr por horas ouvindo esse CD, se a asma não me atacar antes. Qualquer som, qualquer lugar, qualquer esforço para desligar minha mente da minha mania de criar monstros que não posso derrotar...
Apenas mais um dia comum, em que o vazio segue sendo consequência e não razão.

02/11/2019

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Xérox

Se eu pudesse eu tirava uma cópia colorida sua e também uma em preto e branco. A colorida eu colocaria na minha mesa de cabeceira, pra me despertar um sorriso todas as manhãs. A preto e branco eu levaria comigo pra onde eu fosse, pra que eu pudesse ver cores em tudo no meu caminho, procurando nelas cada tom do seu olhar.
12/09/2012

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Selfie

Eu nunca soube porque nunca gostei de me ver em foto. Não essas fotos aleatórias que tiro pra postar no Instagram que depois nem me lembro o dia ou local que tirei, mas foto de lembrança, de lugares que fui, de momentos importantes, de sentimentos bons que senti. Eu nunca gostei. É a única lembrança que eu passo pelo meu Facebook direto, ou quando alguém me marca em algo desse tipo, eu dificilmente comento ou curto. Sempre me perguntei porquê, o que a foto me incomoda, a prisão de uma lembrança, meu sorriso idiota, mas genuíno, a idéia de um tempo que não volta ou talvez de um tempo que não devia ter acontecido. Talvez me ver na foto seja a mesma sensação que eu tenha ao me ver no espelho, pode não parecer, mas o tempo que eu passo diante do espelho, eu estou arrumando o meu cabelo. Se me perguntarem a cor dos meus olhos, o formato da minha boca, o tamanho do meu nariz, eu não saberia dizer. Talvez tenha a ver com uma autoestima estraçalhada durante uma vida inteira, talvez o medo de relembrar a criança de uma infância destruída, talvez o incomodo e a vergonha de ver um rosto e o corpo da forma como os outros viam e me faziam me sentir mal pelo que eu sentia sobre mim mesmo. A fotografia, sendo como for, me incomoda, porque ela em si não tem poder, mas a lembrança que ela gera, é tão venenosa e corrosiva, que não consigo me lembrar de uma foto que não me deixe angustiada. A foto me mostra da pior forma que eu posso me ver: fraco, vulnerável, emocional, oco, aquele ser sem alma ou melhor com uma alma que ninguém nunca soube ver, com um sorriso tão patético, mas tão sincero que só eu mesmo consigo decifrar: você estava tão feliz, que devia ter congelado o tempo real, a foto não dá conta do tamanho da sua alma, da alegria do seu sorriso, da importância do momento. A foto é só um desejo fracassado de se prender num tempo, num breve momento, onde dava pra ser feliz, sem o tempo precisar intervir. A foto ainda é meu mistério, talvez eu nunca saiba o que nela me inquieta, só espero não viver tanto, pra achar que o tempo é o que faz do veneno na foto, seu antídoto.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Aproveite a vista

Engole a ânsia de vômito, quando tentarem te lembrar que você não tem mais sonhos. Repense tudo que você aprendeu, tudo que você é. Você nunca conheceu muitas palavras e mesmo assim tinha mais sonhos do que um dicionário poderia descrever. Talvez tenha sido burrice ter insistido, ao invés de fazer a coisa lógica quando seus sonhos morreram, você devia ter parado de viver. É a linha que separa tentativa do sucesso, a mesma que separa inveja de talento, apesar de todas culminarem numa mesma explosão de raiva e, poupando os detalhes, acabam em vômito. Você nunca soube escrever e nunca parou de tentar. Está aí o fim da sua estrada, tudo que você conquistou Olhe e contemple, com carinho, a imensidão do nada. É tão linda, que você poderia morrer. E vai. Não lamente. O nada é tudo que te pertence, aceite de bom grado. O universo é um cretino e você, apenas mais um pouco de nada imerso em suas tristes e desgraçadas profundezas. Aproveite a vista, não há mais nada para admirar.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Restos

Houve um tempo em que eu trocaria tudo, pelo seu amor. Eu renegava todo meu mapa astral. Olhava para céu imaginando se você poderia me amar. Você pode, hoje eu sei. Você demorou demais pra me deixar saber. E meu amor se transformou. Deixou a poeira se transformar em pedra, a lembrança doce se tornar indiferente. Seu nome não tem mais sabor em minha boca. Talvez você se pergunte se eu posso te amar novamente, olhando para o céu, sonhando o que poderia ter sido. Não foi, porque não era pra ser, porque você não quis que fosse. Já eu, hoje respeito meu mapa astral e não direi nunca, porque nunca poderei prever, mas se até o poema é desprezível, imagine o sentimento que restou por você. Vou guardar os bons poemas, porque não lamento ter te amado, só lamento ter amado tanto, que agora não restou mais nada.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Luta

Eu luto, luto até meus dedos sangrarem, meus pés lastimarem, minha alma arder. Eu luto para manter, não para reconquistar. Se eu desistir, me dêem como morto, porque eu prefiro morrer do que recomeçar.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Laços

Eu procuro motivos pra ficar, procuro, procuro, mas não encontro. Não há laços, não há oceanos, só poças rasas de água suja, finos barbantes encardidos, receios engordurados pelo medo maior de partir, que diminui a cada motivo que não encontro para ficar.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

23h23

Existe muita coisa por trás de suas caretas, muitos silêncios atrás de sua voz. Seus olhos escondem mais do que demonstram, uma alma cheia de tormentas, atrás de seus melhores sorrisos.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Caluã

Eu sou filha da lua, filha das rainhas africanas e visto meu turbante como coroa negra, visto o universo onde minha mãe é deusa, ostento pedras para que a natureza me proteja. Eu nasci no coração do mundo, como o Baobá minhas raizes ficam na cabeça.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Saudade não se traduz

O que fazer com a saudade? Sentimento tão quente quanto frio, tão amargo quanto doce, tão bom e tão ruim...

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Translado na cidade maravilhosa

Meu ônibus passou ao lado de um acidente, eu nunca olho, mas não tinha como não ver. Tinha sangue por toda parte. Eu estava lendo uma notícia de um estupro e torcendo pro meu ônibus bater só pra eu morrer. Aí vi todo aquele sangue no chão, a vida que se perdeu na estúpida pressa do motorista carioca. Tive mais raiva ainda. Quis morrer também. Talvez alguém desse minha falta e fosse legítimo, mas sinceramente não me digno sequer a me importar. Querer morrer é pra dor se esvair e não pra começar. Com essa conclusão compreendi a morte, entendi tanta gente que eu amei e se foi. O coração ta apertado, angustiado, despreocupado com o sentimento dos outros, mas quem sabe isso seja uma coisa boa. Eu me machuquei quando o ônibus freiou, torci amargamente pra morrer logo e não ficar sentindo dor. Perder tudo, todos, perder até mesmo a confiança em mim. Eu queria mesmo era não ter que acordar cedo pra ser tão infeliz.

Sobre crises

A crise é literária. Um dia de amor intenso pelo texto, se torna um dia de repulsa e vergonha pelo que foi vomitado no papel. Um momento de bem estar tão longo como o que estou tendo, não vai ser desperdiçado por nenhum respingo de mediocridade ambiente sobre mim. A obra se perde, meu bem-estar jamais.