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segunda-feira, 6 de abril de 2020

O inútil paradoxo da opinião


Estamos presos pela ilusão da liberdade.
A internet parece vasta, mas estamos limitados por ela.
Vemos o mesmo feed
As mesmas pessoas
Os mesmos posts
Mesmos assuntos
Estamos presos por este mundo
Presos políticos de nossos próprios círculos
Estamos presos pelo tempo cíclico
Numa Terra que gira e de repente volta a ser plana
Que avança em velocidade mais lenta do que retrocede
Presos dentro de um loop
Onde tudo se repete, dejavu de outras vidas
De outras encarnações
Deus acima de tudo, deus é uma mulher negra, deus está morto, pela violência das ideias de quem acreditou em deus acima de tudo
Cadê seu deus agora? Gritam os que matam e destroem pelo deus é amor
Eles avançam com o projeto doentio de dominação pelos três poderes:
A estupidez, a mentira e a violência
Por isso que eu morro, todos os dias quando encontro motivo pra sorrir
Por isso que eu vomito, toda vez que me sinto feliz
Não dá pra ficar tudo bem
Não dá pra agir como se estivesse
Engano foi eu ter vindo pra esse mundo, não 80 tiros
Despreparado estou eu para existir neste mundo, não a polícia
Acidente foi eu ter nascido com vida, não Brumadinho
Enganado fui eu de achar que viver valia a pena, não quem escolhe um fascista para governar um país.
Isso tudo porque permanecemos presos
No paradoxo inútil da 'minha opinião'
Se deus existe ou se está morto, o fato é que não importa, não se importa,
Nem com eles, nem conosco
E na hora da morte só irei pedir
A qualquer deus que esteja de plantão
Que não permita que eu volte pra esse mundo
Nem como bactéria, nem como homem branco
Nada levo desse mundo, nada deixo
E nem como estrela no céu ou gota de água no oceano, nem de lembrança quero este mundo
Esse mundo é sua própria prisão
Sua própria contradição
E já não suporta sua própria e insuportável solidez.
06/12/2019

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Silenciamento

Os sãos não entendem
Os que estão na bad podem piorar
No trabalho, depressão não é motivo de atestado 
O silêncio é mandatário 
Engole o choro 
Cala suas dores
Sufoca com o refluxo das palavras que não pode dizer
Não consegue respirar este ar carregado de tensões e angústias
Se afunda na própria merda que está sua vida
Até que morrer seja a coisa mais digna a se fazer

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Testamento

Eu não deixo nada
Nem herança 
Nem dívidas
Nem avisos
Nem saudades 
Nada levarei deste mundo
Nem sequer orações, que dispenso com prazer
Nem flores, que não devem ser mortas para desgosto do jardim
Não deixo mágoas
Não deixo rancor
Não deixo sorrisos
Lembranças
Não deixo, nem mesmo, lágrimas de crocodilo
E as palavras...
Ficam pro vento
Pro esgoto
Pra privada entupida
Pra porra
Não deixo nada
Não quero nada
Eu nem devia ter vindo
Não há porque fingir lamentar
A deusa da vida me leva tarde
Fui vomitada pela terra
Sou fruto de seu escarro
Um dejeto recolhido
Descartado
Não há minutos de silêncio
Nem pêsames e pesares
Não deixo nada
Nada levo
Fica apenas para a deusa mãe
O gosto ruim
E um alívio meigo
De finalmente
Limpar a boca
Após ter me vomitado

Isso não é um poema, é apenas a parte que devia ir pro lixo

Como dizer o que se sente
Se o sentimento não é expressão 
Não é palavra
Não é ação
É desconexão
Embaralhamento
Confusão
O sentimento é uma tela que trava
E quanto mais fuça, mais trava
É um bug
No meu universo de bugs
E por definição
Bugs procuram e copiam inseguranças
Depois as proliferam
Em outras palavras
Se você tá mal
Por causa de um bug
Você vai ficar cada vez
Pior
E pior
Até não ter pra onde mais cair
E então chegar a mesma e eterna conclusão
Eu não devia estar aqui
E ainda não sei porque continuo.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Invisível

As pessoas me vêem
Mas elas não me enxergam
Eu sou invisível 
Ninguém nunca prestou atenção em mim
Não valia a pena notar 
O olhar desesperado de uma criança sendo destruída
O medo aterrorizante de uma alma que muito cedo sonhava com a morte
Não valia a pena perceber
Os cortes que desferiu na própria alma, porque odiava sua própria pele
Os gritos que sufocou na madrugada de banhos frios, pra afogar o desejo antigo de morrer
Pra que prestar atenção?
É só uma criança estranha
Só uma adolescente dramática
Só uma adulta metida
Ela não tem problemas, porque ela conta piada
Ela não tem problemas, ela tem muito estilo
Ela não sofre, porque sempre quer ajudar os demais
Ela é forte, porque não teme morrer por seus ideais.
Ela não teme morrer, porque ela quer morrer.
Ela não sofre, porque ela não tem ninguém com quem contar
Ninguém que apenas a enxergue
Ela não tem problemas, porque ela engole cada um deles antes de dormir
E chora no meio de desconhecidos
No transporte coletivo
No banheiro químico
Ela vomita toda noite
Tudo que comeu e o que não disse
Tudo o que ouviu e deixou passar
Tudo que ignorou, quando foi ignorada
Ela se isola, sem paredes
Não tem pra onde fugir
Esse mundo a quer morta desde que nasceu
E pro seu azar e pior pesadelo
Ela sobreviveu
A única coisa que deixa por escrito
É uma série de vazios
E a promessa de jamais avisar
Porque os desatentos iam fazer como sempre
Iam ver e ignorar.

domingo, 27 de janeiro de 2019

Se Martin Luther King não tivesse um sonho

Me isolei do mundo
Porque o mundo era contra nós 
Eu sabia que não precisava de nada
Além dela
Nada
Senão ela
E naquele fatídico verão
Ela se foi
Eu fiquei só no isolamento
O mundo nunca foi lugar pra mim
E o mundo que eu criei desmoronou
Vago só pelos escombros
Procurando algum vestígio de sonho, pra eu voltar a sonhar

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Chora sim

Senta e chora quando precisar, criança 
Esse mundo te derruba o tempo todo 
E ninguém vai te ajudar a levantar

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Partiu

Por um mundo onde eu possa amar sem pisar em ovos
Amar sem um pé atrás 
Quero um amor pra caminhar pra frente
Descalço
É segura na minha mão 
E vamos!

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Love is a losing game

Eu nunca vivi um amor correspondido 
Nunca ouvi um eu te amo recíproco 
Sempre amei as pessoas certas
Que me viam como a pessoa errada.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Drogas brabas

Não há droga mais pesada do que a realidade.
09/01/2016

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Verbete again

Não tente me definir em uma palavra, eu valho, pelo menos, uma musica.

07/09/2012

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Inventário

já fui diário
já fui dicionário
já fui noticiário
já fui confessionário
e como tudo de bom nessa vida
sou apenas temporário

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Machismo nosso de cada dia

Numa sala com centenas de mulheres e apenas um homem
A presença hierárquica utiliza os substantivos e adjetivos todos no masculino
Em respeito ao único homem ali na sala
Enquanto todas as mulheres presentes podem ser desrespeitadas
Um homem vale mais que mil mulheres (ou mais)
Na presença de um homem
Elas não têm o menor valor
Para a gramática
E para a sociedade

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Fatos

A verdade é uma versão perturbadora dos fatos.
10/11/2013

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Porcelana

Sei que estou ferido
Porque vejo palavras quebradas no chão 
Não sei quem se quebrou primeiro 
Mas sem minhas palavras 
Eu não volto a ser inteiro

quinta-feira, 12 de abril de 2018

TEPT ou o túmulo/prisão do meu corpo

Eu não gosto do meu corpo
Não me sinto dona de mim
E não que tenha nascido no corpo errado
Eu só estou presa nele
Mais especificamente 
Nas marcas que restam do que fizeram com ele
São lembranças de passados malditos, que me trazem o desejo de morte, de corte, de escapar deste corpo, deste lugar
Pra conseguir respirar
E me sentir normal
Porque eu nunca me senti normal
Não que me sinta anormal
Não me sinto bem
Não me sinto uma pessoa
Não me sinto dona de mim
Do meu andar
Do meu falar
Do meu olhar
Do meu reflexo no espelho
Do meu não
Não me sinto pertencente à este lugar
Porque ele me prende
Nas correntes invisíveis que dizem como ele deve ser
Nas paredes apertadas que me enfiaram e querem me fazer caber
E eu estou presa
Sufocada
Eu preciso me libertar
Rasgar a pele
Pra revelar
A alma rasgada
A alma deformada pelos apertos para caber, onde não cabia
Cheia de feridas abertas
E sonhos roubados
Estraçalhada
Não há mais nada a salvar
Não me sinto uma pessoa
Me sinto um dejeto
Uma desgraça
Um pedaço de carne mal passada atirada aos cães de rua
E até os cães rejeitam
E vomitam-me
Eu preciso morrer
Porque o corpo matou tudo dentro de mim
Só restou ele, este lugar
Que prende o cadáver de uma alma
Junto com seus sonhos mortos pela vida

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Diagnóstico

As lágrimas caíram
Sem eu sequer notar
Não deu pra perceber
O vazio tomando lugar 
Corri pro hospital 
A procura da promessa
Da cura da minha doença
É, minha filha, disse a enfermeira
Não há remédio pra o que te ataca o coração
E o que é, diaba?
O que assola o meu peito
Você não pode mais amar
Ainda rega alguns poucos sonhos
Mas eles estão sendo arrancados
Despetalados
E pisoteados pela desgraça ao seu redor
Sim, a desgraça
Gente maldita ou amaldiçoada
Gente que impede o ar de chegar aos seus pulmões
Gente que quer te sufocar
A solidão
Essas mudas secas que você insiste em regar
Te mantém viva
Mas esteja certa
Elas vão murchar
E se por acaso a horta de sonhos vingar
Você volte a respirar
E amar? Voltarei um dia
Não é fácil responder
Mas acredito ser mais fácil que o seu coração pereça
Não amar é só um sintoma
De um mal que vem de antes de você
Amar não é o problema
O problema é viver.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Xérox

Se eu pudesse eu tirava uma cópia colorida sua e também uma em preto e branco. A colorida eu colocaria na minha mesa de cabeceira, pra me despertar um sorriso todas as manhãs. A preto e branco eu levaria comigo pra onde eu fosse, pra que eu pudesse ver cores em tudo no meu caminho, procurando nelas cada tom do seu olhar.
12/09/2012

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Selfie

Eu nunca soube porque nunca gostei de me ver em foto. Não essas fotos aleatórias que tiro pra postar no Instagram que depois nem me lembro o dia ou local que tirei, mas foto de lembrança, de lugares que fui, de momentos importantes, de sentimentos bons que senti. Eu nunca gostei. É a única lembrança que eu passo pelo meu Facebook direto, ou quando alguém me marca em algo desse tipo, eu dificilmente comento ou curto. Sempre me perguntei porquê, o que a foto me incomoda, a prisão de uma lembrança, meu sorriso idiota, mas genuíno, a idéia de um tempo que não volta ou talvez de um tempo que não devia ter acontecido. Talvez me ver na foto seja a mesma sensação que eu tenha ao me ver no espelho, pode não parecer, mas o tempo que eu passo diante do espelho, eu estou arrumando o meu cabelo. Se me perguntarem a cor dos meus olhos, o formato da minha boca, o tamanho do meu nariz, eu não saberia dizer. Talvez tenha a ver com uma autoestima estraçalhada durante uma vida inteira, talvez o medo de relembrar a criança de uma infância destruída, talvez o incomodo e a vergonha de ver um rosto e o corpo da forma como os outros viam e me faziam me sentir mal pelo que eu sentia sobre mim mesmo. A fotografia, sendo como for, me incomoda, porque ela em si não tem poder, mas a lembrança que ela gera, é tão venenosa e corrosiva, que não consigo me lembrar de uma foto que não me deixe angustiada. A foto me mostra da pior forma que eu posso me ver: fraco, vulnerável, emocional, oco, aquele ser sem alma ou melhor com uma alma que ninguém nunca soube ver, com um sorriso tão patético, mas tão sincero que só eu mesmo consigo decifrar: você estava tão feliz, que devia ter congelado o tempo real, a foto não dá conta do tamanho da sua alma, da alegria do seu sorriso, da importância do momento. A foto é só um desejo fracassado de se prender num tempo, num breve momento, onde dava pra ser feliz, sem o tempo precisar intervir. A foto ainda é meu mistério, talvez eu nunca saiba o que nela me inquieta, só espero não viver tanto, pra achar que o tempo é o que faz do veneno na foto, seu antídoto.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Edifício Ribeiro Barbosa

Eu sinto culpa
Culpa por coisas que não fiz
Que não podem ser responsabilizadas a mim
Culpa por coisas que eu pensei
Culpa por coisas que eu senti
Culpa por ter olhado torto sem querer
Por ter ferido alguém, sem perceber
Por ter sido defensiva
Por ter perdido a paciência cedo demais
Sinto culpa por amigos que me afastei pelo tempo
Pelo acaso
Pelo pouco caso
Pela quilometragem
Pelo preço da passagem
Pelo trânsito de Madureira
Pela estrada de Pirapetinga
Pelas questões práticas
Porque eu sempre penso nelas
Nas questões práticas
No amor que reneguei pela idade
Pela etnia
Pela hierarquia
Pela opinião alheia
Pelo que podia dar errado
Pelo copo meio vazio
E eu nunca fui de meios copos
A culpa não é remorso
Não é arrependimento
É só um gosto ruim na boca
Quando pronuncio o nome dela
Não é amargo
Porque o sabor é doce
Mas doce demais
Faz mal.